sexta-feira, 15 de maio de 2015

Ah doutor, mosquito desse tamanho...
por aqui não tem!!!

(imagem de dvulgação)
Eles são primos, parecidíssimos. Alados e pequeninos, têm as mesmas qualidades de viverem em áreas tropicais, de se reproduzirem em meio aquático, não voarem tão longe assim e transmitirem doença ao “bicho homem”... Só que um prefere as matas, enquanto outro é urbano, mesmo que já tenha sido visto em zona rural.

Estamos falando do mosquito Anofelino - que transmite malária e é mais comum na Amazônia - e do agora famosíssimo Aedes, pelo terror que vem causando como transmissor da dengue, da chietkungunya, zika e também febre amarela. Doenças que podem matar, apesar do baixo índice de mortalidade.

Seja Anofeles ou Aedes, tudo começa com a presença de 1- alguém infectado e 2- do mosquito. Este receberá o vetor da doença ao morder a pessoa contaminada... e o levará para gente sã. Inicia-se um ciclo que pode se tornar epidemia.

Se não houvesse o mosquito...

OK, óbvio para qualquer profissional de saúde, e quaisquer formuladores que planejam  combater das doenças transmissíveis. A polêmica se instala na sistemática a adotar, que tem a prevenção como fator principal.

Doutor Juljan sempre lembrava (com saudade) dos antigos “exércitos de mata-mosquitos” espalhados pelo país, com a missão da conscientização ininterrupta da população, que assim chamava as equipes de campo da Superintendência de Campanhas de Saúde Pública  (Sucam).

Foram extintas no governo Collor, junto com a própria Sucam. Sem o combate permanente dos focos de mosquitos, o país passou a conviver com o crescente retorno da dengue a cada verão... até chegar à atmas nunca com atual crise de 2015.


O Cavaleiro da Saúde
traz o episódio da participação de Dr. Juljan no 22º Encontro de Medicina na Fronteira Brasil–Peru–Bolívia, em 1993, e seu entusiasmo com palestra do antropólogo e médico Ari Teixeira Ott, então professor assistente (hoje Pró-Reitor de Pós-Graduação e Pesquisa) da Universidade Federal de Rondônia (Unir). Tal encanto com a descrição das dificuldades relacionadas à conscientização da população, que levou a publicar a apresentação no jornal Urtiga, da Associação Ituana de Proteção Ambiental (Aipa), que eu editava.

Fala-se do Anofeles, vetor da malária, num contexto de ocupação da Rondônia. Números dão ideia da
situação de então: em 1994 foram 133,8 mil casos de malária só naquele Estado (551,1 mil nos nove estados amazônicos), com 42 dos 414 óbitos na região, segundo dados oficiais.

Passaram-se 22 anos. Dr. Juljan certamente tiraria cópias do texto hoje, para mostrar a formuladores de opinião. Pois, mesmo que longo, ele permanece interessante como referência para pensar o atual drama do Aedes e da dengue, e a busca de soluções. Confira:
 


ASPECTOS ÉTNICOS NA SAÚDE DE RONDÔNIA
Ari Miguel Teixeira Ott

I. INTRODUÇÃO


O sistema de cuidados médicos nas sociedades capitalistas ocidentais é dominado pelo paradigma biológico. A produção e reprodução do conhecimento médico, bem como a formação de pessoal, ocorre e é validado pelo ponto de vista das ciências biológicas. A expansão das descobertas de novas tecnologias, a partir do aumento de produção da energia desencadeada com a revolução industrial em meados do século passado [obs.: século 19], criou no ocidente a confortável ilusão de que todos os problemas humanos podiam ser resolvidos pelo aumento do patrimônio tecnológico...


A ciência surgiu como a nova deusa a quem se deve pagar todos os tributos. As grandes descobertas e conquistas até os anos setenta solidificam a crença do crescimento constante de um mundo cientificado, de onde a fome e a apatia estariam banidas, e de uma sociedade medicalizada, de onde a doença e a morte, estes entes ameaçadores, estariam expurgadas.


A partir dos anos setenta os constantes fracassos tecnológicos em resolver os problemas estruturais da sociedade, a crise político-ideológica, o aparecimento inexplicável de novas doenças e o recrudescimento de antigas epidemias, o aumento da fome a níveis planetários, as guerras étnicas fraticidas e a perpetuação das desigualdades sociais entre nações e dentro de nações levaram a sociedade ocidental a voltar-se para antigas e esquecidas formas de conhecimento.


Ressurge, assim, a crença em práticas alternativas de autoconhecimento, a valorização do aspecto e do ritual do ser humano, as terapias alternativas e contemplativas e a compreensão mística do mundo.


À falência das tecnologias como panaceia para todos os males, seguiu-se a compreensão de que o preço a pagar pelo progresso é destruição das condições de vida no planeta. O movimento pela preservação do meio ambiente, nascido nos anos oitenta como bandeira de luta de grupos isolados e exóticos, amplia-se e consolida-se pouco a pouco, superando as discussões e preocupações de caráter ideológico que dominaram as décadas precedentes.


É com este cenário como pano de fundo que se pode pensar os aspectos étnicos de Rondônia.


II. DEFININDO GRUPO ÉTNICO


Uma definição de grupo étnico deve incluir dois aspectos importantes:
* é um grupo cujos membros possuem uma identidade distintiva atribuída, e
* sua distintividade como grupo tem quase sempre por base uma cultura, origem e história comuns.


É importante alertar, entretanto, que a conceituação de grupo étnico é um assunto que está longe de ter sido esgotado. Os autores divergem muito uns dos outros, dependendo da teoria utilizada ou do caso específico que está sendo abordado.


Se utilizarmos a definição acima, pode-se levantar uma questão fascinante e que parece em aberto: existem grupos étnicos em Rondônia? E, em caso positivo, como esta etnicidade influenciaria as crenças e práticas médicas e, por consequência, a morbimortalidade do grupo?


Rondônia, como todos sabem é um Estado com características diferenciadas em relação a outros estados brasileiros. A sua população é predominantemente constituída por migrantes de todas as partes do Brasil. Além disso, o grosso da migração é relativamente recente, datando da década de setenta e, mais ainda, da década de oitenta.


* Nos municípios da BR 364, portanto, não se encontrarão agrupamentos humanos que possam reivindicar para si mesmos uma base cultural e histórica comum. Descartaríamos a designação de grupos étnicos para os agrupamentos paranaenses, capixabas, catarinenses, mineiros e muitos outros que se estabeleceram no município de Cacoal, Vilhena, Ji-Parana, Rolim de Moura ou outros.


* Nos municípios de Porto Velho e Guarajá-Mirim, ambos de colonização mais antiga, pode-se pensar em uma situação diferenciada. Nestes dois locais é possível vislumbrar pelo menos a tentativa dos migrantes originais e seus descendentes constituírem-se em grupos étnicos. Nestes casos é possível distinguir nos autodenominados "filhos da terra" uma identidade distintiva atribuída. O fato de que os "não filhos da terra" referem-se aos primeiros como sendo "minhocas", reforça a nossa convicção, dado que nas relações entre grupos étnicos é necessário que o outro identifique o nós, de modo geral, como ocorre nesse caso, por uma perspectiva depreciativa. A confirmação ou negação desta hipótese exigiria obviamente estudos mais aprofundados.


O que não se pode descartar, embora os estudos existentes acerca do tema sejam insuficientes, é marca da influência que os traços ou elementos culturais dos diferentes grupos exercem sobre o perfil de morbimortalidade da população.


III. ETNIA E DOENÇA: O CASO DA MALÁRIA


Muito mais do que aspectos operacionais e/ou administrativos, cujos problemas foram potencializados a partir da extinção da SUCAM e da FSESP, reunidos e um único órgão no governo Collor , e que estariam dificultando o controle da malária no Estado de Rondônia, devem ser considerados os fatores de ordem ecológica, econômica e sócio-cultural. [obs.: em 1991 – dois anos do presente artigo – Collor assinou o Decreto Federal nº 100, criando a Funasa - Fundação Nacional da Saúde, que “incorporou” as antigas Sucam - Superintendência de Campanhas de Saúde Pública - e Fsesp - Fundação Serviços de Saúde Pública]


Se o ecossistema amazônico, por si só, já propicia condições ideais para o desenvolvimento dos vetores da malária, a presença do homem tem como efeito a otimização destas condições.


O estabelecimento do migrante na área rural ocorria através da abertura de uma pequena clareira na mata, com a construção de um pequeno abrigo de palha ou plástico, sem paredes e apenas com o telhado.


À medida que a família estivesse mais capitalizada, o tapiri inicial era substituído por uma construção de madeira o "pau a pique". Este tipo de habitação permitia o livre trânsito dos anofelinos, com consequente infecção intradomiciliar.


A proximidade da casa com a mata e a presença humana afugentava os mamíferos silvestres da área, subtraindo ao vetor sua fonte de alimentação, que se via obrigado a fazer seu repasto sanguíneo no próprio homem.

Adicione-se, ainda, a este quadro, o represamento parcial de igarapés, provocado pela derrubada de árvores de grande porte com sombreamento da coleção aquática e oferta de matéria orgânica, condições extremamente favoráveis à proliferação larvar.


Outras práticas, muito mais prosaicas, devem ser consideradas. Algumas delas, inócuas do ponto de vista da saúde pública quando realizadas no local de origem do migrante, podem assumir um caráter inteiramente diferenciado no contexto amazônico.


O consumo de chimarrão, por exemplo:

* com a família reunida na varanda da casa no fim do dia, tem uma função sociocultural relevante, pois fortalece os laços familiares, propicia a discussão dos temas domésticos e permite avaliar e planejar as atividades grupais.

* Esta mesma prática, cumprindo as mesmas funções, quando se realiza em Rondônia pode se constituir em um momento privilegiado para a infecção da malária, se os anofelinos também estiverem presentes à reunião.


Não se veja nestes exemplos nenhuma tentativa de considerar o migrante como vítima ou vilão, mas apenas a tentativa de demonstrar que o homem ao migrar não leva consigo apenas os bens materiais que pode carregar. Ele leva fundamentalmente suas crenças, valores e práticas.


Ainda que migre para uma região com um contexto ecológico completamente distinto do seu local de origem, ao menos no começo, ele mantém, ou tenta manter, o conjunto de crenças, valores e práticas que recebeu durante o processo de aculturação e/ou socialização.


E nem poderia ser de outra forma, porque é a cultura que determina, em última instância, o seu "weltanschauung", ou visão de mundo.


IV. O PARADIGMA BIOLÓGICO E A CULTURA


Do conjunto de crenças e práticas mantidas pelo grupo devem ser destacadas aquelas relativas aos cuidados de saúde.


As crenças e práticas médicas das pessoas visam identificar, remover, interromper, aliviar ou prevenir os episódios de mal-estar, crise ou distúrbio. Isto significa que boa parte dos esforços das pessoas de qualquer sociedade estão centrados na profilaxia, diagnóstico e terapia das moléstias que as afetam.


É claro que as crenças e práticas irão variar de sociedade para sociedade e dentro da mesma sociedade entre diferentes grupos. Estas diferenças são determinadas por diferentes processos de socialização primária.


Mais óbvio ainda, mas infelizmente nem sempre percebido, é que as crenças e práticas médicas sustentadas pelas pessoas, não necessariamente estão baseadas no paradigma biológico da medicina ocidental.


Ao contrário, ainda que possam adotar conceitos e práticas assimiladas da medicina ocidental, eles serão reinterpretados em um contexto lógico próprio. Um antigo exemplo, hoje já incorporado como piada, ajuda a esclarecer este ponto.
Gran mosquito para colorear, em 2015. Tudo igual
(fonte: enricacallas - imagui.com)
Há alguns anos a SUCAM considerou que deveria ensinar para as pessoas o ciclo biológico transmissão da malária. Para tanto providenciou a impressão de cartazes com a figura do anofelino em posição de pouso, de forma que as pessoas pela visualização do cartaz aprendessem a identificar o vetor.

Para facilitar a visualização o anofelino foi ampliado centenas de vezes na reprodução. Passado algum tempo da divulgação do cartaz, a SUCAM viu-se obrigada a suspender a campanha porque seus idealizadores perceberam que as pessoas estavam interpretando os cartazes com uma lógica própria, embora impecável: se a malária era transmitida por um mosquito daquele tamanho, não deveria haver malária na região, visto que ninguém conhecia um mosquito daquele tamanho; por outro lado, em havendo malária na região, somente poderia ocorrer transmissão de outra maneira que não por mosquito.


* Em inquérito realizado por Hayes & Ferraroni ao longo de um trecho da BR 174, que liga Manaus a Boa Vista, foi demonstrado que apenas 45% das pessoas entrevistadas revelaram conhecer que a transmissão da malária se dá através da picada do mosquito.

* Estudo semelhante realizado por Ott & Cols. nos municípios de Ariquemes, Ouro Preto e Ji-Paraná indicou que apenas 22% das pessoas entrevistadas associavam a doença malária com a picada do anofelino.


Ambos os estudos, entretanto, indicaram que as pessoas não sabem determinar os sintomas da malária em percentagens muito baixas (9% e 7,5%, respectivamente). Em outras palavras, as pessoas estariam diagnosticando a malária corretamente, na esmagadora maioria, embora o conhecimento sobre os mecanismos de transmissão não estivesse de acordo com os preceitos biológicos.


É preciso ressaltar que este aparente desconhecimento não significa, nem revela ignorância e confusão, como querem alguns autores, revestidos de uma capa etnocêntrica que os impede de considerar como válidas explicações diferentes das suas.


O sistemático desconhecimento dos aspectos étnicos atualizados pelas populações, especialmente por parte dos planejadores de saúde, tem levado à perpetuação do que poderíamos chamar de falácia das cabeças ocas. Isto é, os planejadores consideram como universalmente válidos e inquestionavelmente corretos os procedimentos da medicina ocidental; desprezando, considerando como curiosidades folclóricas, ou como atestado do nosso subdesenvolvimento, as crenças e práticas médicas mantidas pelas pessoas.


V. CONCLUSÃO


Infelizmente, são raros os trabalhos que se dedicaram a estudar as crenças e práticas médicas de grupos étnicos relativas às doenças e seus tratamentos.


* Nos poucos trabalhos produzidos por médicos ou por pesquisadores com formação eminentemente biológica, fica mais ou menos claro que o objeto da pesquisa é determinar o conhecimento que a população tem a respeito dos fundamentos biológicos das doenças. Isto é, por não compreenderem mais profundamente o mecanismos da dinâmica sócio-cultural apegam-se ao paradigma biológico.


* Por outro lado, aos cientistas sociais que se debruçam sobre o tema, falta um conhecimento teórico-metodológico mais acurado em relação ao processo saúde/doença.


Um último aspecto merece nossa atenção, para concluir esta exposição. Trata-se de um questionamento inevitável nos tempos atuais. O fracasso de sucessivas políticas governamentais levou ao sucateamento do serviço público em todos os níveis e à falência do estado brasileiro.


* A penúria do setor de atendimentos médico saiu dos matutinos.


* O abandono da população à própria sorte é constatada em qualquer lugar e a qualquer momento.


* Os administradores de saúde, responsáveis pela gerência dos recursos públicos do setor, parecem estar mais interessados no rápido enriquecimento, do que no gerenciamento eficaz dos dinheiros.


Em nível de Rondônia, a Justiça Federal viu-se obrigada a nomear um interventor para vigiar a aplicação dos recursos na Secretaria de Saúde, em uma tentativa terminal de estancar a sangria dos recursos. Um relatório apresentado pelo Conselho Estadual de Saúde constatou que as auditorias realizadas pelo Inamps/MS
"demonstram cabal e irrefutavelmente a malversação de recursos do SUS pelos gestores relativos a: obras contratadas e não realizadas, no todo ou em parte; licitações fraudulentas e dirigidas; diárias e passagens pagas em duplicidade; notas fiscais e empenhos adulterados e/ou sem confiabilidade; aplicação dos ganhos de capital na conta do SUS; repasses ilegais e indevidos ao Iperon [Instituto de Previdência dos Servidores Públicos do Estado de Rondônia]; sumiço e/ou desaparecimento de mercadorias, medicamentos, equipamentos e veículos automotores, comprados com o dinheiro do contribuinte; favorecimento de alguns fornecedores ou prestadores de serviço; etc."

Quando a situação chega a tal ponto, toda a discussão empreendida acerca dos aspectos étnicos na saúde de Rondônia, assume um caráter acadêmico. Ainda estamos necessitando é de discutir os aspectos étnicos na saúde de Rondônia. (
Porto Velho, 18 de julho de 1993).

Ao pedir autorização para republicar este artigo (originalmente na edição 75 do Urtiga  (outubro/1993)  - o professor Ari Ott mencionou mudanças em Rondônia. Por exemplo, a malária deixou de ser problema por lá, não por uma boa causa. Poluição dos rios - problema mais recente - criou ambiente onde a larva não se desenvolve... (Silvia Czapski)

Quer saber mais?

Neste blog
* Sobre a FSESP (ou Fundação SESP)


Por aí...
* Mosquito "gigante" da dengue no youtube

* Saudade da SUCAM (e o fim exército mata-mosquito)

domingo, 11 de janeiro de 2015

Cinco anos sem Dr. Juljan
e um lindo artigo-homenagem


(Sentido do relógio): 1- (alto, esq) Última foto da família na fazenda Obra:
Juljan agradando o cão, com seus pais e o irmão Jan (1939). 2- Juljan em
congresso médico no Peru (1960s); 3- Juljan diretor da Fenaess, a Federação
dos Hospitais do Estado de São Paulo (1990s), 4- Recebendo homenagem
da Hospitalar, das mãos de Francisco e Waleska Santos;
5- com Hiroshi Nagajima, diretor geral da Organização Mundial da Saúde;
6- Em Itu, diante de muda de ipê que plantou;

Seu sonho era completar 90 anos, que comemoraria em 14 julho de 2015, coincidentemente a data nacional francesa. Se estivesse conosco hoje, estaria ligado na mobilização lá em Paris nesse domingo e contextualizando essa improvável união de chefes de Estado em torno da paz. Mas quis o destino que Dr. Juljan Czapski nos deixasse mais cedo, em 12 de janeiro de 2010, há exatos 5 anos.
 

Nada melhor para lembrá-lo que a reprodução neste blog do lindo artigo-homenagem na revista Campo & Cidade, assinado pelo historiador e professor Jonas Soares de Souza. Mestre em História Social, doutor em História Econômica pela USP e especialista em patrimônio cultural, Jonas foi diretor do Museu Republicano Convenção de Itu (braço do Museu Paulista, ou  do Ipiranga, como conhecemos), secretário  de Cultura de Porto Feliz (SP), escreveu mais de uma dezena de livros e conviveu com o Cavaleiro da Saúde como membro do Conselho Diretor da Associação Ituana de Proteção Ambiental (Aipa), presidida por Juljan. Uma convivência de mútua admiração.

Campo & Cidade conquistou um público fiel e colecionador por sua característica única: a cada edição aprofunda-se num tema, com destaque para a raiz histórica e aspectos regionais. A linguagem é leve, jornalística, com muitas ilustrações. No final da revista, uma seção 
relaciona as fontes consultadas, para quem queira se aprofundar ainda mais. 

Sustentabilidade é o assunto da edição em que Dr. Juljan ganhou destaque. Mas o artigo vai além, traçando um perfil biográfico que inclui um episódio inédito (que
 abre a matéria) e menções ao livro Cavaleiro da Saúde, inspirador deste blog. Vale a leitura (Silvia Czapski). 

"Juljan Dieter Czapski 

(Por Jonas Soares de Souza, Campo & Cidade)
 Médico pioneiro em medicina de grupo incursionou nos campos da arte e do meio ambiente
Jonas Soares de Souza assina o texto-homenagem
 “Programas de desenvolvimento sustentável só serão realidade se tiverem a participação de todos os grupos de interesse e uma maior responsabilização no que diz respeito a questões ambientais e sociais”, comentou Juljan Czapski com o historiador Alberto Vieira, presidente do CEHA (Centro de Estudos da Madeira).
Vieira estava no Brasil a convite de instituições universitárias para conferências nos eventos comemorativos aos “500 anos do Descobrimento”, e encontrara-se com Juljan, no Museu Republicano Convenção de Itu/MP, em abril de 2000. Em sua fala Vieira abordara os fenômenos de mobilidade humana, econômica, comercial e ecológica provocados pela cultura da cana-de-açúcar, “planta que escravizou o homem, esgotou o solo, devorou florestas e dessedentou os cursos de água”.
Juljan, revelando-se conhecedor do assunto, leu na sessão de perguntas que se seguiu à conferência um trecho anotado do livro “Geografia da Fome” escrito pelo médico, geógrafo e ativista brasileiro Josué de Castro:
“Já afirmou alguém, com muita razão, que o cultivo da cana-de-açúcar se processa em regime de autofagia: a cana devorando tudo em torno de si, engolindo terras e mais terras, dissolvendo o húmus do solo, aniquilando as pequenas culturas indefesas e o próprio capital humano, do qual a sua cultura tira toda a vida”.
Na conversa que correu solta depois do cafezinho, Juljan convidou Alberto Vieira para ver terras de Itu que há dois séculos foram cobertas de cana-de-açúcar e depois conhecer sua “menina dos olhos” – a Fazenda São Miguel e os projetos da Aipa (Associação Ituana de Proteção Ambiental), no Bairro Varejão-Taquaral.

Educação ambiental

Premiação Concurso da Primavera da Aipa (Foto Alan Dubner)
Muito antes de o assunto sustentabilidade tornar-se uma prioridade planetária Juljan Czapski já havia despertado para questões de preservação do meio-ambiente e desenvolvimento sustentável. Em fevereiro de 1986 fundou a Associação Ituana de Proteção Ambiental, em Itu/SP, voltada especialmente à educação ambiental e recomposição da flora com árvores nativas. A Aipa também desenvolveria campanhas de hortas escolares sem agrotóxicos e dedicaria atenção à ausência de cuidados com a saúde ambiental, estudos e respectivos relatórios de impacto ambiental na implantação dos conjuntos habitacionais do Bairro Cidade Nova. Os projetos contaram com apoio de empresas locais, Unibanco Ecologia, União Europeia e Lateinamerika Zentrum.
A trajetória do médico, humanista e ativista ambiental é contada no livro  “O Cavaleiro da Saúde”, de Silvia Czapski e André Medici, publicado em 2011 pela Novo Século Editora. O livro, a ser degustado como romance, traz a história surpreendente de Juljan Czapski, idealizador da primeira empresa brasileira de medicina de grupo, pioneiro na criação dos planos de saúde no País e que também incursionou nos campos da arte e do meio ambiente.

Fugindo do holocausto

A vida no campo marcou indelevelmente a infância de Juljan Dieter Czapski, que nasceu em 1925 na Fazenda Obra, província de Poznan, Polônia. Seus pais, Fryderick Czapski e Ilza Dyrenfurth, criavam gado leiteiro holandês e cavalos de raça e plantavam centeio, trigo, batata e beterraba para a produção de álcool. Em 1939, Fryderick, membro da Câmara de Comércio Polono-Latino-Americana e técnico em Agropecuária, foi convocado pelo Ministério das Relações Exteriores para vistoriar uma colônia de imigrantes poloneses estabelecida no Paraná. Em setembro desse mesmo ano o exército de Adolf Hitler invadiu a Polônia. Fryderick não encontraria mais Juljan em Obra.
Fugindo da perseguição alemã na Segunda Guerra Mundial a família Czapski aportou no Brasil em 1941 e Julian foi morar inicialmente em uma fazenda de café em Rolândia, Paraná. Depois de
Juljan e Alice, namorados (Foto Eg Simoni/2015)
algum tempo juntou-se aos Czapski, instalados na capital paulista. Em 1949, Juljan ingressou na Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (USP) e, naquele mesmo ano, casou-se com Alice Brill, artista plástica e fotógrafa de renome internacional.
Estudante tardio, mas dedicado e brilhante, formou-se médico em 1954. Depois vieram o doutorado, a especialização em Administração Hospitalar e a pós-graduação em Saúde Pública. Trabalhou como residente no Hospital das Clínicas sob a supervisão do professor Ulhoa Cintra e, como o pagamento era pouco, complementava seu salário como médico na Ultragaz – pioneira na introdução do gás de cozinha no Brasil e empresa que se perfilava à nova estrutura moderna de benefícios de saúde.

A partir de então, começou a formular e desenvolver o conceito dos Planos de
Grupo de funcionários da Policlínica, Juljan é o mais alto, última fila
Saúde e Medicina de Grupo. Implantou a ideia em sua própria empresa, a Policlínica Central, e seu primeiro cliente foi a Volkswagen do Brasil. O sucesso da iniciativa fomentou o surgimento das empresas de saúde privada que se conhece hoje e também a própria Abramge (Associação Brasileira de Medicina de Grupo).
Juljan Czapski, nas palavras do médico, professor e cientista Adib Jatene, foi “uma das lideranças mais atuantes na formulação e na execução de medidas que resultaram em nosso sistema de saúde atual”. Juljan Czapski morreu em São Paulo em 12 de janeiro de 2010.

Proteção do Cerrado

A Fazenda São Miguel em Itu foi comprada em 1960. Como forma de aproximar-se dos proprietários rurais, no ano seguinte, Juljan filiou-se ao sindicato rural, à associação e à cooperativa agrícola do município. Nos anos de 1980 a fazenda tornou-e sede da Aipa, e ali eram promovidas ações junto à comunidade para tratar de questões de educação ambiental e desenvolvimento sustentável. Juljan investia recursos próprios para pôr em prática as ideias nascidas na Aipa e gerar soluções que só 20 anos depois estariam no seio das preocupações coletivas.
Viveiro da Aipa: com o embaixador da Polónia e esposa
Aconselhado por Ladislau Deutsch, diretor do Simba Safari na capital e amigo da família Czapski, foi criado um nicho de mata nativa para manter exemplares das espécies do cerrado ituano, em risco de extinção. Juljan também fez gestões para envolver a vizinhança num projeto de longo prazo de preservação da fauna e flora e idealizou a criação de uma área de proteção ambiental municipal inédita. Com apoio do engenheiro florestal Rinaldo Orlandi, desenhou uma área com três níveis de proteção. No centro, um raro remanescente de cerrado, então utilizado para treino de tiro pelo Exército. No entorno, um cinturão protetor com menos restrições de uso. Da iniciativa surgiu a Área de Proteção Ambiental Bairros Varejão-Taquaral, criada por decreto do então prefeito Lázaro Piunti (MDB) e depois consolidada por Lei Municipal.

Soluções viáveis

Juljan colaborou com a ativista Beatriz Pionti, fundadora de um pioneiro Conselho Municipal de Defesa do Meio Ambiente (Condema), presidindo a câmara técnica do colegiado. Para o diagnóstico da fauna e flora na região, em 1987, envolveu os jovens biólogos da Sociedade de Preservação da Vida Selvagem (SPVS), criada em Curitiba/PR.
Juljan divulgou a experiência ituana em eventos nacionais e internacionais e foi um dos idealizadores do Ecointerior, primeiro encontro de ambientalistas do interior paulista, realizado em Piracicaba/SP, em 15 de setembro de 1989, com patrocínio do Serviço Social do Comércio (Sesc) e suporte logístico da Prefeitura Municipal de Piracicaba/SP e da Universidade Metodista de Piracicaba (Unimep). Na abertura do evento ele sintetizou seus princípios:
Ao lado de um dos ipês que plantou em Itu
“sou de firme convicção que defesa do meio ambiente não pode ter cor política. Todos os partidos devem lutar por este ideal. Pouco adianta sermos polícia, eternos denunciantes, eternos contra. Temos de ser sempre a favor de um projeto, apresentar soluções viáveis de demonstrar a viabilidade de nossas propostas”.
Por decisão de Juljan, a Aipa se alistou no Fórum das ONGS e Movimentos Sociais da Eco92, realizada no Rio de Janeiro, tornando-a conhecida internacionalmente. Em 1997 a Aipa recebeu do Ministério da Educação a indicação como uma das cinco melhores do País no campo e o programa das hortas escolares sem agrotóxicos e ganhou destaque no vídeo de abertura na teleconferência nacional de educação ambiental, retransmitido pela TV Escola para um público de mais de um milhão de espectadores." (Jonas Soares de Souza - Revista Campo & Cidade ed. 92)

Para saber mais

* Site da Revista Campo & Cidade e o artigo sobre Dr. Juljan no site
Neste blog: 
* Dois Anos sem Dr. Juljan e uma interessantíssima história
* Três anos
E mais
* Video-homenagem a Dr. Juljan (7 minutos)
* Sobre o livro

terça-feira, 23 de setembro de 2014

Milagre das Águas?

Sapurtiga era um personagem sempre preocupado em proteger seu próprio ambiente. Povoava as páginas do Urtiga, jornal da Associação Ituana de Proteção Ambiental (AIPA) que editei por 20 anos, distribuido como encarte em todos jornais locais, numa colaboração dos veículos de comunicação.

Foi uma provocação do historiador e professor Jonas Soares de Souza que me levou a reencontrá-lo, ilustrando atualíssimo artigo do Cavaleiro da Saúde de 1999, que reproduzo em seguida.Você verá que, há exatos 15 anos
, na seção Opiniões, da edição 135 (nov/dez 1999) do referido Urtiga, Dr. Juljan - presidente da associação - previa o efeito dramático de políticas públicas desacertadas no campo das águas. Que veio com as piores consequencias neste ano, devido à seca incrivelmente prolongada que castiga o município e todo Sudeste do país.


Antes de mais comentários, vamos ao texto, que ganhou o irônico título Milagre das Águas?: 
"Recebi uma carta, datada de 3 de novembro, do Senhor Prefeito da Estância Turística de Itu. Confesso que a carta me surpreendeu. Não pelo fato já muito conhecido de Itu ter uma deficiência de fontes de água. Nem pelo fato do Poder Público Municipal ter feito praticamente nada nas últimas décadas para preservar estas fontes, ou adequar o crescimento do Município à disponibilidade de água, e sim pela fé extremada na Iniciativa Privada.

Pelos termos da carta, o Senhor Prefeito acredita, aparentemente, que a Iniciativa Privada é detentora de um novo e milagroso processo de produzir água. Caso não seja o fato e a Iniciativa Privada consiga resolver o problema da escassez - há mais de uma década denunciado pela AIPA - estará dando um atestado e incapacidade da Administração Municipal. Se a água está disponível, porque a Prefeitura não consegue fornecê-la e a Iniciativa Privada, sim?

É preciso lembrar que a água é retirada de rios ou do subsolo, ambos de domínio público, conforme os preceitos da Constituição Federal de 1988. Além do consumo doméstico, fornecimento para os animais e irrigação, a água tem outros usos: produção de energia, navegação, pesca, disposição de efluentes, controle de cheias, lazer. O seu uso afeta sempre vários municípios, às vezes, estados, já que os cursos d'água, com respectivos lençóis freáticos não se limitam às fronteiras políticas municipais, instituídas pelos Homens. Se tiramos água demais em nossa área, os vizinhos que ficam adiante e dependem da mesma fonte serão prejudicados.

Sem água não há vida. Trata-se de um bem público de alto significado estratégico, portanto sua exploração não deve ser simplesmente entregue à iniciativa privada.

Por outro lado, o descuido com que a questão é tratada por muitas autoridades também é inadmissível. Tomemos o exemplo da Bacia do Ribeirão São Miguel, fonte de abastecimento dos bairros Cidade Nova, Parque Novo Mundo e Jardim União. Já por ocasião da apresentação do Estudo e respectivo Relatório de Impacto Ambiental (Eia/ Rima), na gestão passada da prefeitura, advertimos que a água disponível neste ribeirão seria suficiente para uma população prevista - de no máximo 15.000 a 20.000 habitantes - apenas se houvesse um extremo cuidado com os recursos hídricos, para que a vazão do Ribeirão continuasse preservada.

Não foi o que aconteceu. Além da Prefeitura autorizar a construção do empreendimento Agro Road [
hoje, sob outra direção e rebatizado Road Shopping] - que já de inicio poluiu o referido ribeirão e assoreou ("entupiu") nascentes, não manteve a necessária vigilância no local. Ainda recentemente, em obra clandestina, o Agro Road assoreou outra nascente e mais de que isto - verificamos que o sistema de esgotos do empreendimento é insuficiente até durante a semana, quando o movimento é baixo, o que gera poluição da água que segue para uma parcela da população do município. A denúncia da AIPA a órgãos estaduais, municipais e ao Ministério Público, resultou em paralisação temporária da obra, que já voltou sorrateiramente, sem a devida ação restritiva das autoridades.
O conjunto inicialmente chamado "Cidade Nova", por outro lado, cresceu além da medida prevista e nem todos possuem água encanada, que era uma promessa pública da Prefeitura e obrigação prevista no mencionado Eia/Rima. Quem visitar a represa onde está a bomba que retira o precioso líquido para abastecer o conjunto, verá que o ladrão por onde sai a água excedente verte quase nada. Ou seja, não existe mais água disponível para a Cidade Nova. E não será a iniciativa privada que vai fabricá-la. Se a população ituana continuar crescendo exponencialmente, como tem ocorrido, recebendo ainda mais migrantes, não será a iniciativa privada que inventará novas formas de abastecera população.

Está na hora de repensar o município, assumir a responsabilidade pelos serviços essenciais, tomando medidas drásticas para preservar o que temos."
(Dr. Juljan Czapski, Presidente da AIPA, médico com mestrado em Saúde Pública - Jornal Urtiga 135, nov/dez 1999)

Fico me perguntando o que escreveria Dr. Juljan hoje, em que a população de "Cidade Nova" superou o dobro da previsão da época, alcançando cerca de 40 mil pessoas... com perspectivas de novos loteamentos urbanos e distrito industrial. Sem falar do Centro de Itu (núcleo histórico e se entorno) também com população crescente e ainda mais prejudicado pela falta de água.

Habitantes sofrem, a mídia repercute os protestos (cada vez mais tensos), bem como as medidas emergenciais e que a empresa concessionária está mudando de mãos. (
Silvia Czapski).

terça-feira, 22 de julho de 2014

Há 20 anos - Saúde e Ecologia

Acabo de receber de James Moreno Salazar - da Federação Internacional de Hospitais (Internacional Hospital Federation, ou IHF), na Suiça - cópia de uma página do Health Services International, publicação trimestral da entidade, que me lembrou um dos mais criativos períodos do Cavaleiro da Saúde. É do  ano de 1994, quando ele ajudou a idealizar - ao lado de Dra. Waleska Santos - o I Congresso Latino-Americano de Serviços de Saúde, semente de um Fórum que reúne hoje mais de 60 eventos científicos da Feira+Fórum Hospitalar, hoje uma das maiores feiras do setor no mundo, e o  mais importante fórum de saúde da América Latina. 

São Paulo, 1994: Dr. Juljan, Hiroshi Nakajima (Diretor Geral
da OMS) e Dra Waleska Santos (Presidente da Hospitalar)
Naquele ano, eles trouxeram para debater no Brasil um incrível naipe de personalidades, encabeçadas pelo então diretor geral da Organização Mundial da Saúde, Dr. Hiroshi Nakajima (na foto ao lado, com Dra Waleska e Dr. Juljan), e sete ex-ministros de saúde da Europa do Leste que contaram a experiência de migrar do comunismo para o capitalismo na área da saúde. A lembrar que cinco anos antes, em 1989, ocorrera a "queda do Muro de Berlim", que desencadeou essa mudança política.

Para mim, é especialmente forte a lembrança de um convite que o Cavaleiro da Saúde fez, ao final da I Hospitalar, a um pequeno grupo de dirigentes de federações de hospitais da América Latina e Europa. Foram todos a Itu, para conhecer o projeto ecológico realizado pela Associação Ituana de Proteção Ambiental em Itu, que Dr. Juljan presidia e onde eu atuava. Um domingo delicioso com direito a almoço sob velhas mangueiras.

Reproduzo abaixo, em tradução livre, as notícias de duas décadas atrás do veículo de comunicação da IHF. Um perfil de Dr. Juljan que menciona a ação ecológica, além de uma novidade para os leitores: duas participações do médico em eventos da Organização Mundial da Saúde, como representante da IHF. 

PERFIL - Dr. Juljan Czapski
O foco principal do trabalho atual do vice-presidente da Federação Internacional de Hospitais e Diretor Técnico da Fenaess (Federação Nacional de Estabelecimentos de Serviços de Saúde do Brasil), Dr. Juljan Czapski, é o desenvolvimento de um modelo adequado para os serviços de saúde nos países em desenvolvimento, especialmente na América Latina.  
Dr. Czapski formou-se em medicina na Universidade de São Paulo, onde mais tarde completou o mestrado em Saúde Pública e o doutorado em Administração Hospitalar. Ele teve a iniciativa, em 1956, de fundar a primeira organização brasileira de medicina de grupo, um sistema que desde então tem crescido, a ponto de hoje oferecer [1994] assistência a cerca de 20 milhões de pessoas. 
Nove anos depois, ele foi fundador da Abramge (Associação Brasileira de Medicina de Grupo) da qual foi presidente por dez anos e continua a ser um membro honorário. 
Ao lado o envolvimento do Dr. Czapski e sua contribuição para a área da saúde ele desempenhou um papel importante na implementação de um projeto de proteção e recuperação ambiental em Itu (SP). O projeto, apoiado pela Comissão para a União Europeia, é dedicado à recuperação do meio ambiente por meio de regeneração florestal com árvores nativas e melhoria dos hábitos alimentares, com a introdução de hortas nas escolas e educação ambiental.  
Vice Presidente participará de Conferência da OMS  
A IHF sempre teve forte ligação com a Organização Mundial da Saúde (OMS) e trabalha para estreitar cada vez mais esse relacionamento. Dr. Juljan Czapski, Vice-Presidente da Federação Internacional de Hospitais, representará a IHF na XXIV Conferência Pan-americana de Saúde, e na XLVI Reunião do Comitê Regional da Organização Mundial da Saúde, em Washington DC  de 26 a 30 Setembro de 1994, apenas um de um grande número de reuniões da OMS em que a IHF participa.(Health Services International - 1994)
1978: Visto para o Cazaquistão
e bottom da Conferência
Por mais de meia década (1991-1997), Dr. Juljan foi vice presidente da IHF. Mas bem antes disso, em 1978 - como secretário-geral da Federação Brasileira dos Hospitais e já como membro do Conselho dessa entidade internacional - ele foi o único brasileiro presente na famosa Conferência de Alma Ata, realizada pela OMS com a Unicef na capital do Cazaquistão. 

De lá saiu o moderno conceito, até hoje em vigor no mundo, da saúde como "o estado de completo bem-estar físico, mental, social e não somente a ausência de doença", um direito fundamental do ser humano, essencial para o desenvolvimento econômico, a qualidade de vida e o sonho da paz mundial. 

A
pesar de ser representante de uma organização não governamental, normalmente sem direito a voz, ele conseguiu falar no púlpito dessa Assembleia mundial.  Mas essa é uma uma peripécia que está contada no livro O Cavaleiro da Saúde. (Silvia Czapski)

quinta-feira, 19 de dezembro de 2013

Alice e Juljan

Trecho de carta de Alice Brill para a Galeria Quatro Artes - 1965
Passaram-se quase seis meses e só agora, ao encontrar cópia desta curiosa carta dirigida à Galeria Quatro Artes de Ribeirão Preto/SP, tomo coragem de escrever sobre a partida de Alice Brill Czapski, a companheira de Dr. Juljan por mais de seis décadas que faleceu há quase seis meses, na madrugada 29 de junho deste 2013. 

Curiosa, por revelar uma faceta de Dr. Juljan (o marido mencionado na carta), desconhecida por quase todos que partilhavam das atividades dele como médico, batalhador pelas políticas públicas de saúde e defensor da causa ambiental.  

Alice chegou ao Brasil em 1934, fugindo do nazismo, em ascensão na Alemanha onde ela nascera. Tinha 13 anos e o sonho de seguir a carreira do pai, artista plástico. Por ser  impossível viver de arte, buscou emprego em outras áreas. Conheceu Juljan quando contratada como secretária da firma fundada pelo pai dele, que existiu por poucos anos. 

Viveram um fascinante período, em que, juntos, assinaram a ata de fundação do Museu de Arte Moderna, erigiram a Casa Czapski, projeto assinado pelo hoje famoso arquiteto Vilanova Artigas. Também juntos trabalharam com fotografia nos anos 1950: ele, como assistente dela, enquanto cursava medicina na USP. Mais tarde, os papéis se inverteram para Alice se dedicar às artes, filosofia, ensino e escrita. 

Ao escrever O Cavaleiro da Saúde dei-me conta do quanto as duas carreiras continuaram entrelaçadas. Um exemplo está no trecho da carta que abre esse post. Na época, Juljan lutava com todas suas forças para enfrentar a oposição à Medicina de Grupo, ao mesmo tempo em que dirigia sua Policlínica Central. Nada disso o impediu não só acompanhar a esposa Alice numa exposição fora de São Paulo, onde viviam, como ajudar na sua montagem.

Em 1973, foi a vez de se evidenciar a colaboração de Alice, que ofertou a arte da capa dos Anais do Segundo Congresso Internacional de Medicina de Grupo (acima) primeiro grande evento internacional organizado pela Associação Brasileira de Medicina de Grupo, a Abramge, que Juljan presidia. Realizado em 1973 no então glorioso Hotel Nacional do Rio de Janeiro, o evento atraiu mais de mil participantes do Brasil e Exterior, número impressionante para a época e os parcos recursos disponíveis.  

O Cavaleiro da Saúde está repleto de descobertas como essas, reveladoras de uma convivência especial entre duas pessoas de carreiras tão diferentes.  (Silvia Czapski)

sexta-feira, 6 de setembro de 2013

Como fixar médicos em áreas inóspitas?

Após o debate, jantar de confraternização do Congresso da Fepas - Federação Peruana de Administradores em Saúde em 2009: Dra. Luz Loo, liderança do setor no país, desdobra-se apresentando dança típica, e
visitando mesa por mesa, com líderes do setor-saúde. Na foto maior, com Dr. Juljan (gravata listrada).

Impossível não lembrar do epílogo da biografia "O Cavaleiro da Saúde", ao acompanhar as polêmicas em torno da vinda de médicos estrangeiros, em especial cubanos,
para atuarem em áreas carentes, onde brasileiros não se dispõem a ir. 

Um dos temas prediletos de Dr. Juljan - como fixar profissionais de saúde em áreas tão difíceis - foi escolhido por ele para palestrar no Congresso da Federacion Peruana de Administradores en Salud (Fepas), realizado em Lima/Peru, nos idos de maio/2009. Não sabíamos que seria sua última viagem internacional do Cavaleiro da Saúde, e quase derradeira apresentação em público (em junho daquele ano ainda coordenou o Congresso Latino-Americano de Serviços de Saúde, na Hospitalar Feira+Fórum, em São Paulo)!

Intitulada "Fixação de Recursos Humanos Qualificados em Regiões Não Desenvolvidas", a apresentação faz pensar para além dos problemas hoje apontados nas notícias sobre o atual programa governamental "Mais Médicos". Confira (os grifos são meus):
 
"Um dos problemas de difícil solução, especialmente na área de saúde é a fixação de profissionais em áreas subdesenvolvidas e muitas vezes até em áreas periféricas de grandes centros urbanos.
Abordarei neste trabalho as primeiras, pois as causas dos dois problemas são diferentes e as possíveis soluções também diferem.
As tentativas para solução do problema tentadas pelas autoridades fracassaram no Brasil. 
Eram baseadas em remuneração convidativa, ou tentando obrigar recém-formados a estagiarem em regiões distantes, pouco desenvolvidas. Não se levou em consideração uma série de fatores socioeconômicos e culturais que são essenciais. Com isso, ambas medidas fracassaram.
Como exemplo, quero citar um trabalho realizado pelo Banco Interamericano de Desenvolvimento (elaboração de um projeto de assistência a saúde e coordenado por mim) na Ilha do Marajó na Amazônia - a maior ilha fluvial do mundo. Durante grande parte do ano, a maioria das áreas da ilha estão alagadas e só existem meios de condução por via fluvial. As casas estão construídas sobre palafitas. Nestes povoados praticamente não há pessoas com educação de nível superior. As comunicações são deficientes, internet não funciona, não existe infraestrutura de saúde pública. O governo do Estado do Pará ofereceu salários e condições convidativas aos médicos. Alguns se candidataram, mas quem mais tempo ficou nos postos, ficou por três meses.
A única solução possível encontrada nestas áreas é dar um bom treinamento a pessoas não profissionais para dar primeiros socorros, realizar vacinações, promover hidratação oral e principalmente avaliar a gravidade da situação para poder promover a remoção do doente por helicóptero ou barco rápido (lanchas voadoras) até um centro com recursos, no caso a cidade principal da ilha. Esse pessoal também deve ser treinado para dar assistência às grávidas e ao parto. É essencial que haja um treinamento eficiente e uma supervisão por médicos e enfermeiros não residentes, mas também um programa de visitas constantes para fazer uma supervisão e treinamento permanente.
Outro fator limitante para fixar profissionais são as condições ambientais. Posso citar um exemplo, Tabatinga, na Amazônia. A água nem sequer é clorada. O lixo, conforme relatado pelo Dr. André Medici, economista em saúde do Banco Mundial, mesmo do hospital existente, é queimado no quintal. Não há coleta de esgoto. O médico mesmo com boa remuneração não se fixa na cidade. Por falta de profissional habilitado, o cirurgião dentista realiza cirurgia geral de menor porte. No hospital do exército, o melhor da região.
O Secretário de Educação Profissional Tecnológica do Ministério da Educação me referiu que o ministério implantou uma escola técnica em Tabatinga, porém, não consegue contratar o pessoal docente para realizar o ensino. Isso são apenas alguns exemplos da situação geral. Mas existem exemplos que provam que é possível reverter a situação.
No Brasil, na época dos anos 1960, existiu uma experiência positiva para enfrentar o problema, da Fundação SESP (Serviço Especial de Saúde Pública). Este serviço tinha uma política especial com bons resultados. 
* Escolhia as regiões problemáticas e lá estabelecia postos de serviços com serviços ambulatoriais, educação sanitária e alguns leitos para casos de urgências. 
* Não se enviavam para lá simplesmente médicos, enviava-se equipe de saúde. Esta equipe consistia no mínimo por um médico generalista, um médico de saúde pública, enfermeira, educadora sanitária, técnico de laboratório, para realizarem exames básicos e eventualmente outros necessários em vista das condições locais. 
* Esta equipe formava para auxiliá-la agentes de saúde. 
* Cada equipe era ligada a uma instituição de ensino que lhe dava suporte. E dispunha de meio de transporte para ao caso de necessidade remover um paciente. As equipes levavam em geral um projeto de pesquisa com a garantia de que, se bem realizado, seria publicado. 
* Além do mais, havia um plano de cargo e funções que garantia aos participantes das equipes que se destacassem cargos em estabelecimentos de ensino ou bolsa de estudo para aperfeiçoamento no país ou em universidades estrangeiras.
* A área de atenção de cada equipe tinha um território delimitado, o que possibilitava a avaliação das melhorias sanitárias conseguidas por suas atividades.
Essa experiência mostra que para fixar profissionais, condições outras, além da remuneração, são essenciais - existência de uma equipe, condições de moradia, condições adequadas de trabalho, metas profissionais estabelecidas e contato com centro mais avançados para consultas e orientação.
Também é essencial que a equipe tenha a garantia de atendimento de casos complexos em centros adequados.
Infelizmente por motivos políticos partidários as atividades da Fundação SESP, que tinha um suporte internacional foram desativadas.
Dei o exemplo da SESP apenas como exemplo, existem outros no Brasil, sempre isolados, como de hospitais que conseguem fixar profissionais em regiões isoladas. Nas condições básicas, seguem os princípios adotados pela SESP.
Portanto existem soluções, mas dependem de gestão competente e adequada.
Não conheço as condições nas demais regiões da America Latina, mas suspeito que sejam semelhantes as do Brasil. Entre nós o problema é preocupante, e não vejo medidas das autoridades para resolvê-lo, espero que este Congresso [da Fepas, 2009] consiga ser um ponto de partida para um estudo sério do problema".
No final do capítulo, encerro a biografia do Cavaleiro da Saúde com uma incrível história contada por Dra. Luz Loo (nas fotos que ilustram este post) numa homenagem póstuma a ele em 2010. Mas isso fica para quem lê o livro. (Silvia Czapski)

terça-feira, 14 de maio de 2013

Despedida de mãe

Tantas mensagens em torno do Dia das Mães, mas não consigo esquecer da mais linda que li, carta de uma mãe a seu filho pouco antes de partir para o destino final. Não poucas vezes vi lágrimas brotarem dos olhos de meus amigos durante a leitura.

Por isso, tomo a coragem e a liberdade de compartilhá-la aqui, pela primeira vez via internet, neste espaço dedicado à biografia de Dr. Juljan Czapski, O Cavaleiro da Saúde.

Atestado de óbito Ella Dyhrenfurth, Thieresienstadt, 3/dez/1942
documento raro para morte em campo de concentração.
Foi escrita em agosto de 1942  por Vally Ollendorff - tia-avó de Juljan -, para seu filho Ulrich, na antevéspera de seu destino final: o campo de concentração de Thieresienstadt, famoso "cartão de propaganda" que Adolf Hitler usava quando queria demonstrar o tratamento "humanitário" a seus prisioneiros na II Guerra Mundial.

Tanto é que temos o atestado de óbito, com data e local, obviamente só entregue à família após o fim da Guerra Mundial. (veja ao lado uma certidão negativa)

Naquela época, Juljan tinha 17 anos e já vivera uma saga de dois anos em meio à guerra, para chegar ao Brasil com seus pais e irmãos. Mas sua avó materna, Ella Dyrenfurth, não pudera sair da Alemanha. E a irmã Vally, num incrível ato de solidariedade, acompanhou-a até o fim.

Isso mesmo. Dos Estados Unidos, o filho Ulrich conseguira um visto para a mãe escapar para Cuba. Mas isso significaria deixar sozinha a amada irmã Ella naqueles duríssimos dias de conflito mundial.

Mesmo que sob forte censura, o campo de Toermersdorf foi o último pouso de onde as duas ainda puderam enviar cartas. E isso também está nas entrelinhas desta emocionante despedida de Vally Ollendorf para seu Ulrich:

Toermersdorf junto a Rothenburg, 24 de Agosto de l942

Meu amado, meu querido filho.

Dentro de dois dias sairemos daqui, e o futuro parece tão escuro que não está longe o pensamento de que este novo local será o último em nossa peregrinação e, quando você meu filho, tiver esta carta em mãos, não estaremos mais sendo jogados de um lugar para outro, pois todo o sofrimento tem um fim, também a incerteza, e a paz estará conosco e em torno de nós. Deseje me esta paz. meu querido filho, e não fique triste demais, acredite assim é melhor.

Eu já estava mesmo no fim da minha vida, e a mãe que você conheceu, meu querido filho, essa não existe mais. As tristezas, dificuldades e incertezas foram demais para mim e jamais consegui superar a morte de Wolfgang, que em 27 de Agosto completará um ano. A dor aumenta cada vez mais e as cartas que recebo de seus camaradas apenas me mostram o que ele se tornou e o que ainda poderia vir a ser. Suas cartas para mim e seu pai mostravam uma comovente gratidão por sua infância e juventude.

Também você, meu querido filho, pode ter a consciência por toda tua vida que você sempre foi uma fonte de pura alegria para teus pais e que mesmo nos tempos às vezes difíceis da adolescência jamais perdeu o caráter íntegro ou nos deu motivos de desgosto ou tristeza. Que tua vida vá de sucesso em sucesso, meu querido filho, e que você permaneça como era em criança, bondoso, modesto e grato por tudo o que é bom e belo.

Que encontre tanta felicidade em teu filho como nós encontramos em você. Que as bênçãos que suplico para você se tornem realidade e que possa ter uma vida alegre e feliz com Anne, tua fiel companheira para a vida, e com a qual você me trouxe uma filha querida. Não poder testemunhar vossa vida na América foi muito mais triste para mim do que vocês podem imaginar.

Todas tuas cartas repletas de carinho filial, despertavam em mim o eco da saudade e da alegria de um reencontro, e faziam com que eu tentasse todo o possível para me juntar a vocês. Se eu não escrevia com tanta frequência sobre minha angústia, era por amor, porque imaginava que fosse melhor para vocês. Mais uma vez digo, e sei que me entendem, eu estava e estou feliz por vocês, se bem que cheia de saudades. O destino não permitiu que eu fosse aí, eu era uma necessidade para tia Ella, e penso que isso vos consolará - queria tanto que assim seja.

Agora meu querido filho, quero me despedir. Quero te agradecer mil vezes por todo o amor, toda a gratidão, toda a alegria, e o raio de luz que trouxe na vida do teu pai e na minha desde o dia em que você nasceu. Que a lembrança da casa paterna e da tua infância te iluminem como uma estrela brilhante e protetora meu querido, amado filho.

Mãezinha [Vally Ollendorf para o filho Ulrich]

No livro O Cavaleiro da Saúde há um pequeno trecho de outra carta, escrita por Ella para a filha Ilza - mãe de Juljan -, dez meses antes de serem mandadas para o campo de Thieresenstadt. Ella tinha então 71 anos de idade. Também comovente.

Toermersdorf, 27-29 de outubro de 1941:

Minha querida Ilse,

Queria tanto poder descrever direito como estamos passando. Em primeiro lugar quero dizer: não se preocupem demais realmente é suportável e, se tivessem entrado aqui hoje cedo quando o correio chegou com as cartas de vocês e alguns presentinhos, também ficariam mais tranquilos.

Ilse, Fritz, nem posso lhes dizer quanta paz e força interior me trazem suas vidas, vocês juntos e conscientes da felicidade dessa união. Mesmo se minha preocupação por Werner é grande e a lembrança de Hertha nunca me abandona, minha gratidão pelo destino de vocês é tão grande que suporto muitas coisas com mais facilidade.

É um golpe duro para mim que tenha que me separar de tia Vally que, por esforços que Ulrich conseguiu um visto para Cuba. Naturalmente não posso esperar que ela deixe de ir, no entanto no momento ainda estamos juntas e felizes e satisfeitas com isto. Também temos tanto que fazer que os dias passam parecendo horas, não nos dando tempo de pensar, e isto é bom.

É a terceira vez que estou escrevendo hoje, e escrevi tudo que podia ser escrito. Os dias aqui são todos iguais mas cada um traz sempre algo de diferente. Você certamente entendeu o significado de "depósito de lixo", e Albert Schweitzer diz tão bem em um de seus livros: "Servir aos outros é algo que ninguém pode nos roubar". É realmente um sentimento gratificante quando podemos ajudar de verdade uma pessoa merecedora com um pedaço de pão ou bolo, ou estamos na situação de aliviar um pouco a tristeza e preocupação com um conselho ou uma palavra de carinho. Correm muitos boatos falsos, por outro lado muita coisa, diria tudo, depende do modo de encarar a vida.

A campainha está tocando, temos que buscar o café. Estamos muito ocupados descascando batatas ou em tarefas semelhantes, mas quem está pior são os que com este tempo horrível tem que trabalhar lá fora no campo.

Pus a carta de lado enquanto alegrava uma mãe fazendo jogos de escrever com sua filha de 14 anos e, para alegria de muitos, ajudei a dobrar roupas.

Tudo de bom para vocês e. sempre com vocês.

Sua mãe [Ella Dyhrenfurth para a filha Ilza]

Extraí estes textos de uma pequena publicação preparada nos anos 1990 por Jan Czapski, irmão do Cavaleiro da Saúde, que reuniu escritos de Ilza e Fryderyk Czapski com apoio da sobrinha Inês Czapski Dellape, filha de Juljan, na tradução para o português.

Detalhe importante, já conhecido por quem leu a biografia de Dr. Juljan: Ilse e Fritz - mencionados na segunda carta, são os nomes em alemão de Ilza e Fryderyk Czapski, pais do Cavaleiro da Saúde. Assim foram citados por terem nascido quando a Polônia ainda pertencia ao Império austro-húngaro. No livro demos preferência às novas grafias, que utilizaram inclusive no Brasil. (Silvia Czapski)